Exemplo de duas mulheres do nosso tempo

 


 

Ginetta e Chiara

CARLA COTIGNOLI

“O perdão é uma força que ressuscita para uma vida nova e infunde coragem para olhar o futuro com esperança”. São palavras de Papa Francisco (Misericordiae Vultus, 10). O testemunho da força do perdão e da misericórdia chega a nós por meio de duas mulheres do nosso tempo: Chiara Lubich e Ginetta Calliari. Ginetta foi uma das primeiras jovens que a seguiram, considerada pela fundadora do Movimento dos Focolares como cofundadora do Movimento no Brasil, onde Ginetta dedicou a sua vida, sem medida, por mais de 40 anos, até os seus últimos dias, nesta Mariápolis que depois recebeu o seu nome. Respectivamente, nos dias 14 e 8 de março, comemorou-se o aniversário do nascimento delas para a vida do Céu. Nós queremos recordá-las percorrendo o patrimônio de santidade que elas nos deixaram, e que agora está sendo estudado pela Igreja, uma vez que estão caminhando os processos de beatificação das duas. Vamos nos encontrar com as raízes daquele amor evangélico que brota da misericórdia e gera uma vida extremamente fecunda, ou seja, a revolução evangélica que, a partir de Trento (Itália), se espalhou em muitos países do mundo. Começou com a descoberta de Deus Amor que Chiara experimentou naqueles anos de ódio e violência do segundo conflito mundial, descoberta que são João Paulo II definiu como a Gênese do novo movimento evangélico que nasceu. A novidade de vida que trazia, 20 anos antes do Concilio Vaticano II, provocou naqueles tempos acusações, suspeitas, até que provocou o começo do estudo pela Igreja de Roma. Essa provação permaneceu durante anos. Mas será a própria dor a raiz da misericórdia que Chiara definiu como “a última expressão da caridade, aquela que a realiza”. Ela confiou essa profunda experiência espiritual numa meditação. Eis alguns trechos: Quando se bebeu o fundo do cálice e, durante dias e anos, se ofereceu a Deus a própria cruz, incorporada à sua, que a valoriza divinamente, então Deus tem piedade de nós e nos acolhe em sua união. É o momento em que, depois de termos experimentado o valor sem igual da dor, depois de termos acreditado na economia da cruz e de termos visto os seus efeitos benéficos, Deus mostra, de modo mais alto e novo, algo que vale mais ainda do que a dor: é o amor aos outros, em forma de misericórdia, amor que faz abrir os braços e o coração aos infelizes, aos mendigos, aos martirizados da vida, aos pecadores arrependidos. Amor que sabe acolher o próximo desencaminhado, seja ele amigo, irmão ou desconhecido, e o perdoa infinitas vezes. É uma caridade que floresce mais abundante, mais universal, mais concreta do que aquela que a alma antes possuía. E de quanta misericórdia nós precisamos no dia a dia, nas famílias, nas comunidades, no trabalho, diante dos defeitos e das faltas nossas e dos outros que nos impelem à tentação de julgar e assim romper os relacionamentos.

É o que o Papa Francisco nos lembra continuamente! Para reagir no estilo do Evangelho, desde os anos quarenta, Chiara, já naquela época, teve uma ideia. Assim conta a um grupo de muçulmanos: “Decidimos fazer um pacto de misericórdia e, todas as manhãs, olhar o próximo que encontrávamos no lar, na escola, no trabalho etc. de um modo todo novo, sem nos lembrarmos dos seus pontos obscuros, dos seus defeitos, cobrindo tudo com o amor. Nós nos aproximávamos de todos com uma anistia completa do nosso coração, com um perdão universal. Era um compromisso forte, que todas nós vivíamos juntas e que nos ajudava a tomar a iniciativa no amor, imitando Deus misericordioso, o qual perdoa e se esquece”.

Esse olhar de misericórdia ‘universal’, de amor até ao inimigo, naquele tempo de guerra, quando Trento estava ocupada pelos alemães, salvou a vida de Ginetta e de sua irmã, Gisella. Ginetta mesma conta: “Um dia, estávamos em casa, Gisella e eu, quando apareceram alguns soldados alemães. Percebendo que estavam cheios de ódio pela derrota que já se delineava, sabíamos muito bem do que poderiam ser capazes, mas permanecemos calmas e não manifestamos reação alguma. Naquela ausência de amor, identificamos o semblante de Jesus crucificado e abandonado. Colocamos a casa à disposição deles e fomos para o porão, mas antes, como fazia frio, demos a eles também os nossos cobertores. Na hora nem percebemos, mas foi justamente essa atitude que nos salvou do pior, porque os soldados não tiveram coragem de nos fazer nenhuma espécie de mal”. Este estilo evangélico leva também a não ter medo de anunciar a misericórdia de Deus. Era o final da década de 1940. O chefe do trabalho de Ginetta era anticlerical, colaborava com o jornal do Partido Comunista L’Unità. Ela disse-lhe que teria que deixar aquele ótimo trabalho, sem explicar o porquê. Isso o deixou curioso. O motivo era para dedicar-se ao Movimento que estava nascendo. A convite dela, ele visitou a sede do Movimento para entender os motivos daquela decisão aparentemente ilógica. Ela falou só do aspecto social do movimento, mas depois, arrependida, convidou-o uma segunda vez e por duas horas falou-lhe do que estava na raiz do Movimento e da sua vida: a descoberta de Deus Amor, a vivência do Evangelho. Ginetta mesma conta: Ele me ouviu em silêncio, depois disse: “Tudo é lindo, lindo, mas para mim é lindo demais: eu sou um pecador”. “Se você pede perdão a Deus — disse-lhe — e começa uma vida nova, naquele instante Ele perdoa, a misericórdia de Deus desce sobre você, e a misericórdia de Deus é Deus mesmo, é como um manto de ouro”… Pouco tempo depois, soube que ele se sentiu como que investido por uma força que não sabia de onde vinha e, um passo após o outro, entrou na catedral e viu-se de joelhos em um confessionário onde permaneceu por duas horas. No final, chorava o sacerdote e chorava ele dizendo: “Aquela Igreja que eu persegui, que eu julguei e até condenei, eu a descobri mãe!”. Este estilo de vida não é fácil, certamente, mas acreditando na misericórdia de Deus e dos irmãos se torna possível recomeçar. Ainda Ginetta: “É isso, recomeçar! É preciso recomeçar, não desanimar, porque ninguém nasce perfeito. Eu gostaria de não ter este nome, Ginetta, mas de me chamar ‘Recomeçar’”.

 

Publicado originalmente na edição em português de L’Osservatore Romano, pagina 10

http://vaticanresources.s3.amazonaws.com/pdf%2FPOR_2016_011_1703.pdf


Compartilhe no

Facebook WhatsApp

Regolamento (500)