Pedagogia que gera fraternidade

 
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Por Leidinério Ribeiro (Kiko), de Paranaguá (PR) Quatro anos atrás, quando estava próximo de me aposentar, fiz um concurso para trabalhar como coordenador pedagógico na rede municipal da cidade de Paranaguá, no litoral do Estado do Paraná. Assim que fui convocado, conversei com a minha família e decidimos que seria interessante assumir o cargo, pois um dos nossos propósitos, depois da minha aposentadoria, seria o de morar no litoral. Em julho de 2013, assumi como coordenador de uma escola que atende alunos que moram na estrada que vai do município de Paranaguá para as praias do Paraná. Cheguei nesta unidade escolar com uma experiência de mais de 30 anos de trabalho no ensino privado, cuja realidade é muito diferente da escola pública, principalmente de uma cidade de interior, de uma comunidade muito carente e sem acesso aos benefícios da sociedade moderna. Muitos alunos moram na área rural e o único contato com outra realidade é o ambiente escolar.

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A escola conta com 580 alunos. Já os professores são 34, os quais, a partir daquele momento, estavam sob a minha responsabilidade. A maioria deles já atuava juntos durante os seis anos de existência da escola. Entendi, diante do que encontrei ali, que deveria me inculturar na realidade daquela comunidade. No entanto, por parte do corpo docente, não fui muito bem recebido, em virtude da pressão que os demais colegas coordenadores pedagógicos costumam impor para que o trabalho seja realizado.  

Um objetivo comum

No primeiro trimestre, procurei conhecer cada um desses profissionais e me colocar à disposição para contribuir com o bom trabalho que realizavam. Percebi que existia certa rivalidade entre a equipe pedagógica e o corpo docente e me empenhei em ser imparcial, procurando me “fazer ‘um’ com todos”. Pedia sempre a luz do Espírito Santo para ter a Sabedoria e o discernimento para ser justo com cada um. Esta minha atitude criou certo desconforto, ao ponto de me questionarem sobre de que lado estava afinal. Respondi que estava do lado do aluno e acreditava que todos ali também estavam, bem como faria tudo para que todos os esforços fossem voltados para esse único objetivo. A partir de então, procurei viver por esta causa.

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No início, como não conhecia os alunos, fiz questão de recebê-los na entrada das aulas. Na ocasião, por precaução contra a gripe H1N1, ao chegarem à escola, os alunos recebiam álcool em gel para higienização das mãos. Achei ótima a oportunidade de criar um vínculo com cada um: colocava o álcool gel na mão e cumprimentava cada um com um “Bom dia” ou “Boa tarde”. Esta atitude pareceu estranha inicialmente para os professores e para os pais, em função daquela ser uma prática incomum numa escola pública e do interior. O fato é que, mesmo tendo passado o período da campanha de prevenção contra a gripe, conseguimos criar o hábito da higienização, prática que se mantém até hoje. Apesar das posturas inicialmente contrárias e do fato de serem alunos cujas famílias vivem em condições precárias, entendi que eles mereciam um atendimento digno. Além disso, o hábito de cumprimentar os alunos chamando-os pelo nome passou a ser adotado também por professores e funcionários. Outra experiência muito interessante foi com relação às refeições. Ao seu término, o local onde os alunos se alimentavam fica intransitável, pois restos de comidas, de frutas e farelos encontravam-se espalhados pelas mesas e pelo chão. Quando questionei a equipe, disseram-me que tinham desistido, porque não adiantava nem mesmo ameaçar os alunos para recolherem o lixo. Com o tempo e já tendo a confiança da maioria dos estudantes, fiz alguns acordos e, espontaneamente (ou por obra do Espírito Santo!), durante a fila para o almoço, comecei a cantar uma adaptação de uma canção que ouvia durante alguns encontros do Movimento dos Focolares: “Vamos comer uma comida bem gostosa. Arroz, feijão, salada, nada no chão!”. Começaram a adotar essa prática e o ambiente sempre passou a ficar limpo. A motivação foi deixar o local em ordem para o próximo que chegar, agradar as funcionárias da limpeza e repetir esta prática também em casa. Hoje, qualquer coisa que se deixa cair no chão é motivo para cantar a musiquinha.

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Esta experiência motivou professores e equipe a valorizar outras ações, pois, até então, tudo que se propunha era desestimulado, o que me fez sofrer muito no primeiro ano de trabalho. Quando alguém solicitava algum serviço, mesmo que a pessoa não tivesse o que fazer, este era protelado. Passei, então, a assumir outra postura: quando me pediam, na medida do possível, fazia na hora e brincava usando frases de tele atendimento como “Estamos aqui para melhor atendê-lo”, “Obrigado por aguardar”, “Seu pedido é muito importante para nós”. Estas atitudes foram assumidas por outros e criou-se um ambiente harmonioso e de pronto atendimento que estreitou o relacionamento de muitos que ali trabalham.

Projetos

Atitudes como essas motivaram o surgimento de muitas iniciativas, como o Projeto de Musicalização e Dramatização (assumido por uma professora que é artista, mas que até então, limitava-se a lecionar aulas de matemática e língua portuguesa); Projeto Matematicando e Reciclando (iniciativa pela qual uma professora passou a ensinar matemática por meio do trabalho de reciclagem de jogos e brinquedos a crianças de diferentes faixas etárias, no horário do intervalo); Projeto Coelhega (pelo qual foi criado um espaço para a criação de coelhos com o objetivo de trabalhar a afetividade), entre outros, como a criação de hortas, floreiras e a plantação de árvores frutíferas, que são cuidadas pelos próprios alunos.

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Todas estas experiências motivaram transformações mais profundas, que contribuíram para passarmos de uma gestão negativa para uma gestão positiva. Teve papel fundamental nessa mudança as atitudes da diretora da escola, marcadas por valores cristãos. Os ecos dessa experiência acabaram por chegar à Secretaria da Educação do Estado. Fui, então, convidado a apresentá-la num encontro de pedagogos da rede de ensino pública de Paranaguá. Foi particularmente difícil preparar algo para colegas de profissão, mostrando a seriedade e a importância do nosso trabalho, no qual o doar-se sem pretender é a base de um profissionalismo que tem a sua origem no amor. Ao terminar minha exposição, disse apenas que a frase “Onde não há amor, coloque amor e encontrarás amor”. E acrescentei: “Onde não há competência, coloque competência e encontrarás competência; onde não há compreensão, coloque compreensão e encontrarás compreensão”, e assim por diante. Para minha surpresa, no entanto, ao final da minha apresentação, as pessoas aplaudiram em pé, o que me fez sentir uma imensa gratidão por Deus me permitir vivenciar essa experiência.

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Commenti

  1. Que alegria Kiko ao ler a tua experiencia. è um testemunho forte e concreto de que a aposentadoria pode se tornar uma ocasiao unica para partilhar a bagagem adiquirida e tb abrir novas portas na construçao de um mundo mais justo e fraterno.

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  2. Pingo

    Rapaz. Que maravilha Kiko. Só alguém com um coração como o seu pode gerar tanta vida. Me emocionei com o relato. Humanidade Nova se faz assim. Pingo. Curitiba

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  3. Olavo de Almeida Freitas

    Essa experiência do Kiko é uma prova documentada e reconhecida do que pode acontecer quando se vive a Arte de Amar, uma proposta “infantil” e revolucionária que Chiara nos deixou. Outro aspecto que colhi nessa experiência é a certeza de que “homens novos farão um mundo novo”! Parabéns Kiko e obrigado por tamanho dom.

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  4. Erika Miskolci

    Também aplaudo de pé!
    A Educação precisa de ações que consideram o outro, suas necessidades e problemas!
    Que Deus permita que sejamos também nós articuladores de um espaço escolar harmônico e solidário!
    Parabéns!

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  5. katie mendes moura

    Sou professora também e gostei muito da experiência do Kiko em Paranaguá. Parabéns pela iniciativa e por compartilhar essa luz. Estou à procura de inovações no meu trabalho, para melhor ajudar meus alunos também em comunidade carente e de muitos conflitos.

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  6. Alencar José Tortelli

    Que experiências fantástica do nosso amigos Kiko. Só quem o conhece sabe que isso é tão verdadeiro quanto é o amor colocado nesse trabalho. “amor, doação sem nada pretender” a não ser o bem do outro.
    Deus abençoe

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