Uma experiência artística em Ouro Preto

 

Há em Ouro Preto, escondida, uma cidade além-cidade. Não adianta correr as ruas e pontes, morros, sacristias, se não houver total entrega. Entrega mansa de turista, que de ser turista se esqueça. Entrega humílima de poeta, que renuncie ao vão discurso de nomes-cor e de palavras-éter…

Ouro Preto Livre do Tempo, de Carlos Drummond de Andrade

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Foi nessa cidade mágica que se realizou nos dias 23, 24 e 25 de setembro o encontro anual dos artistas ligados ao Movimento dos Focolares. A pousada escolhida para a hospedagem era do século XIX, cheia de corredores altos, passagens, porões, paredes grossas e janelas generosas que deixavam entrar a beleza da cidade no ambiente de convivência.

Participaram 40 artistas dos estados de São Paulo, Amazonas, Pernambuco e Minas Gerais, e de quase todas as áreas: música, teatro, cinema, design, arquitetura, dança e artes visuais. Durante todos os dias, antes, durante e depois de programas mais fixos, todos esses talentos vinham à tona, em rápidas apresentações de teatro, música e poesia.

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O encontro começou na sexta-feira com uma visita guiada por Ouro Preto, repleta de descobertas em Arquitetura e na História da Arte. Foi um verdadeiro mergulho no barroco mineiro e em toda sua originalidade.

No sábado, os participantes puderam conhecer o trabalho de Arnaldo Galban, ator cubano que está nesse momento vivendo no Brasil, sobre a opressão vivida em seu país e também a ânsia pela liberdade. Em seguida, uma mesa redonda foi dedicada ao Símbolo na Arte, sua importância, caminhos e atual crise, como é apontada por Gadamer – “um traço característico da hora em que estamos é a miséria dos símbolos”. Como o assunto e alguns textos reunidos haviam sido enviados com antecedência a todos, a conversa foi extremamente rica, com contribuições muito diversas e por vezes até discordantes, mas que traziam contributos importantes e novos olhares ao que se estava construindo.

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Essa dinâmica de mesa redonda com a palavra aberta a todos tem se mostrado muito significativa em nosso intuito de não oferecer respostas, mas buscar juntos por questionamentos que nos pareçam mais relevantes. A conversa também foi intercalada por algumas apresentações musicais e por pequenos trechos de performances e danças que conversavam igualmente com o tema proposto.

As refeições eram realizadas num aconchegante restaurante mineiro há poucos quarteirões da pousada e a caminhada até lá era sempre gasta em boas conversas. É muito interessante notar o aprofundamento das relações entre os que vêm acompanhando esses encontros há mais tempo, assim como a rápida integração daqueles que chegam pela primeira vez e são imediatamente acolhidos pelo grupo.

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Na tarde de sábado, os artistas visuais propuseram a todos uma oficina de desenho pela cidade. Para embasar leram um texto do escritor argentino Julio Cortázar sobre a linha do desenho que corre solta perante o olhar atento e caminha sem possibilidade de contenção, dirigindo a mão. Foi proposto que fosse realmente um exercício de silêncio e de olhar a cidade. O desenho poderia ser uma paisagem ou apenas um detalhe. Interessante o relato de alguns músicos e atores que diziam ter feito uma experiência absolutamente nova do olhar. Depois uma “paisagem possível’’ foi construída numa grande parede, com a junção dessas dezenas de folhas desenhadas.

O final da tarde foi dedicado à preparação de uma atividade performática que ocorreria à noite. A ideia era proporcionar uma experiência juntos e não uma apresentação como um produto artístico, mas realmente uma experiência coletiva. Os artistas visuais e arquitetos delimitaram o trajeto a ser percorrido nessa “travessia”, como foi chamada o desenrolar da atividade. Atores e dançarinos a percorreriam junto aos músicos e seriam formados dois grupos, que partiriam em direções opostas, se cruzariam em um determinado momento e se reencontrariam no ponto inicial. Fotógrafos e designers cuidariam das imagens e projeções.

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À noite, após o jantar, teve início a “construção”. Os artistas visuais e arquitetos apagaram todas as luzes da pousada e toda a experiência foi iluminada apenas com a luz de seus celulares. Na fumaça do gelo seco, tetos, corpos e paredes era feita a projeção das imagens do trajeto pela cidade. O que se seguiu é um pouco impossível de ser descrito… Havia dança, performance, dois grupos que caminhavam movidos pela música e pelas luzes, paredes sendo pintadas, encontros, e, sem dúvida, a experimentação das potencialidades do corpo e de seus limites.

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Ao final, quando a música e todo o movimento pararam, as imagens estavam sendo projetadas no teto do salão e os artistas, deitados no chão, assistiam à sua projeção. Depois disso, teve início espontaneamente uma longa e improvisada contação de histórias, cantos coletivos e conversas que avançaram pela noite, num momento de grande e desarmada troca entre todos, como quando se é criança.

No domingo pela manhã eles se dividiram em salas de conversa com os temas: Viver de arte – carreira e fidelidade a si mesmo, Processos criativos e símbolos, Tradição e contemporaneidade, Arte e espiritualidade.

Contam os organizadores: “Nossa impressão principal desses dias, reforçada pela fala de muitos dos presentes, é de que nesse ano houve um amadurecimento muito grande não apenas no teor daquilo que foi proposto, mas sobretudo como tais propostas foram vividas. É nítido, igualmente, o quanto esse encontro tornou-se um ponto de efetiva interlocução entre pessoas tão diversas, que, não obstante isso, se querem bem, se escutam, partilham experiências. Acreditamos que o principal de nossa proposta – sermos um espaço de diálogo dentro da cultura contemporânea – parece a cada ano ganhar corpo e forma, de um modo como nunca imaginamos, o que para nós é também surpresa e alegria.”


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