“A minha felicidade era imensa!”

 

7 de Dezembro é um dia especial para o Movimento dos Focolares. Hoje, celebramos o “sim” de Chiara a Deus e consequentemente o nascimento desse Ideal da Unidade que se espalhou pelo mundo todo.

Abaixo, Chiara mesma conta como foi esse dia…

 

Rocca di Papa, 30 de dezembro de 1984

7 de Dezembro de 1943

(…) Eu tinha dezenove anos e sentia uma grande sede de Deus. Era Ele que me dava essa sede. Mas era tão forte que, por exemplo, um dia encontrei um sacerdote e lhe perguntei: “O senhor estudou teologia?”, “Sim.”, “Fale-me de Deus”.

Eu julgava que ele soubesse falar de Deus por ter estudado…, mas ele não soube me dizer nada. Em outra ocasião, por exemplo, eu devia fazer a Universidade e, por ser pobre, pedi uma bolsa para não pagar a Universidade Católica. Fiz um concurso, mas não era recomendada, e por um ponto não passei. Lembro-me que chorei muito! É que eu pensava que na Universidade Católica se falava de Deus. E recordo (confio-o entre parênteses) que, enquanto chorava (ainda me lembro), ali, na sala com a minha mãe, dentro de mim ouvi Alguém que me dizia: “Eu serei o teu mestre!”. E foi mesmo assim.

Depois, fui convidada pelas estudantes católicas a participar num retiro em Asiago, que – como sabem os trentinos – é um planalto não muito distante de Trento. E recordo uma coisa… que quero dizer, porque é útil. Eu estava toda entusiasmada: “Até que enfim vão me falar de Deus! Quem sabe que oradores virão?!…”. Estava prestes a partir para Asiago quando surgiu a ameaça da guerra. Então o meu pai me disse: “Não, você não deve ir, porque pode rebentar a guerra!”. Eu, como ansiava profundamente fazer a vontade de Deus e santificar-me, num modo quase heroico obedeci. (Eu gostava de fazer destas coisas, um ato assim!) Obedeci.

E foi por isso que Deus se revelou depois em Loreto. Portanto, se quiserem saber o que é que Deus quer de vocês, recordem que é sempre da morte que nasce a vida; é da poda que nasce o rebento.

De fato, poucos meses depois me convidam para ir a Loreto. Era distante, para mim, que morava em Trento, pois ficava no centro da Itália, perto de Ancona. E era uma cidade famosa, porque (talvez nem todos saibam) nessa cidade os anjos… – dizia-se antes; mas agora fizeram estudos e descobriram que foi uma família chamada “Anjos”. – tinham trazido a casinha…

Parece bastante provável que a casinha de Nossa Senhora, no período das Cruzadas, foi transportada de Nazaré para Loreto, e ali cobriram-na com uma fortaleza, grandiosa, para protegê-la. Fui a Loreto (mal sabia da existência deste fato) e, logo que entrei na igreja grande, fui à capela; que não é uma capela, mas sim a casinha de Jesus, José e Maria, da Sagrada Família. E ali aconteceu uma coisa realmente extraordinária, porque de vez em quando Deus intervém. Fui invadida por uma emoção tão grande, tão grande, tão grande, que me sentia esmagada pelo divino que contemplava à minha volta, porque… Era tão viva em mim a noção de que Jesus podia ter passado por ali, que aquelas paredes teriam ouvido ecoar a voz de Maria, as suas canções, a voz de José, o anúncio do Anjo…! Era tão viva esta sensação que eu só chorava; e eu não choro facilmente!

Era como se tivesse a cúpula de São Pedro às costas, tal era o peso do divino, que me esmagava. Eu observava as tábuas das paredes, tocava-as, e pensava: “Talvez São José tenha feito estas tábuas enegrecidas…”. Era tão forte que, nos dias seguintes, sempre que podia, eu escapava e ia para aquela casinha. E foi naquela casinha, num modo muito, muito vago, que Deus me fez compreender que a minha estrada estaria de certa forma relacionada com aquela casinha, com aquela família, com a Sagrada Família, digamos.

No último dia daquele período em Loreto entrei na igreja. E vi na igreja, que estava cheia de gente, as minhas colegas e outras jovens. Naquele tempo usava-se um véu branco. Eu, estando no fundo, tive uma sensação claríssima, ou melhor, a certeza de ouvir esta frase: “Farei surgir atrás de ti uma multidão de virgens!”. Eu não sabia quem, se focolarinos, focolarinas, ou sacerdotes: “Uma multidão de virgens”. Foram estes os primeiros indícios da vocação.

Depois, como é que isso se concretizou, como é que surgiu a realidade da casinha?

Passaram-se quatro anos (em Loreto, eu tinha 19 anos) e chegamos a 1943. E mais uma vez, enquanto estava fazendo um ato de caridade… porque as minhas irmãs não queriam ir comprar leite, pois fazia muito frio… Uma disse que não, a outra também; minha mãe não me pedia, porque eu tinha que estudar… Então, sempre para fazer uma boa ação, eu me ofereci: “Eu vou!”. Fiz um ato de amor, pois eu não devia ir.

E, pelo caminho para chegar ao lugar onde se comprava o leite, senti que Deus me chamava. Parei e é como se Deus me dissesse: “Dá-te toda, dá-te toda a mim!”. Muito surpreendida, fui comprar o leite, voltei para casa e escrevi uma carta, inflamadíssima, a um sacerdote, dizendo-lhe uma série de coisas; não recordo o quê. Mas a carta era tão inflamada que o sacerdote – que geralmente autorizava que uma pessoa se consagrasse a Deus só por um ou dois meses, seguindo-se períodos de prova – me deu a permissão de me consagrar imediatamente (pedira conselho a outro, mas seja como for!) para toda a vida.

E foi assim. Recebi a autorização e no dia 7 de dezembro de 1943 e fui sozinha… no meio de um grande temporal! Eu tinha a impressão de ter o mundo inteiro contra mim! Já tinha conhecido algumas das focolarinas, porque Dori vinha estudar comigo; outra, eu tinha conhecido por acaso… mas elas não sabiam nada de tudo isto; não se comentavam essas coisas entre nós.

Entrei na capela. Tinham-me preparado um banquinho perto do altar e eu tinha nas mãos um missal, pequenino. Pediram-me para formular a promessa de doar-me totalmente a Deus para sempre. Eu estava tão feliz, que nem me dava conta – provavelmente – daquilo que fazia, porque eu era jovem.

Só quando pronunciei a fórmula é que tive a impressão que uma ponte desmoronava atrás de mim; que eu já não podia voltar para trás, porque era toda de Deus; tinha feito a minha escolha. Foi ali que derramei uma lágrima sobre o missal. Mas a minha felicidade era imensa!! E sabem por quê?

“Eu desposei Deus, portanto espero o maior bem possível! Será fantástico! Será uma divina aventura extraordinária! Desposei Deus!” E vimos, depois, que foi realmente assim.

Chiara Lubich

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