Vidas Negras Importam para os jovens do Movimento Político pela Unidade (MPPU)   

 

Recentemente o caso George Floyd, preto morto em abordagem policial desmedida nos Estados Unidos, reacendeu um debate secular acerca do preconceito e da marginalidade vivida pela população afrodescendente em todo o mundo. Nesse caso em específico, foi gerada uma grande onda de manifestações que deu origem a movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), mas que até então tiveram muita repercussão, mas pouco impacto político que fosse capaz de provocar mudanças significativas na agenda governamental.

Martin Luther King, compatriota de Floyd, religioso e ativista dos direitos civis e negros, ficou marcado na história por seus discursos pacíficos que buscavam conscientizar a humanidade em relação aos negros. Um proeminente líder político negro e pacifista, que buscava a fraternidade entre os povos, King foi assassinado aos 39 anos de idade.

Talvez o caso mais emblemático da luta negra seja o caso da África do Sul, marcado pelo apartheid. No fim da primeira metade do século XX, o país de maioria negra e governado por uma elite branca, institucionalizou um sistema de segregação racial que agravou as disparidades e problemas sociais da região. O sistema duraria até 1994, quando Nelson Mandela assumiria o governo sul-africano, depois de um longo período de revolta civil, sendo o primeiro presidente negro da história do país.    

Diante desses poucos exemplos mundiais, em que o racismo parece persistir na história, não podemos deixar de notar que o Brasil segue uma tendência semelhante. Pesquisas apontam que cerca de 87% das pessoas reconhecem que há racismo no país, mas apenas 4% se confessam racistas. Sabendo que essa conta não fecha, pensamos que é importante não esconder ou evitar o problema, mas abraçar essa “periferia existencial” tão próxima de nós. Essa “chaga” tem origem no sistema escravocrata e na evolução social que levaram a população negra às periferias, onde a ação do Estado é quase inexistente. Um sintoma grave são, por exemplo, as centenas de vidas negras vítimas da violência urbana do Rio de Janeiro nos últimos anos. 

 

Mas nem tudo é desanimador: à duras custas, algumas políticas afirmativas foram instituídas, a exemplo das cotas raciais para acesso ao ensino superior. De modo tímido, mas contundente, também observamos negros em cargos de destaque, como o já aposentado ministro do TSE, Joaquim Barbosa. A cultura também tem seus representantes: Machado de Assis, um dos escritores brasileiros mais lidos no exterior; Djavan e Milton Nascimento, expoentes da MPB.

Diante desse cenário global de dor e resistência, de tristezas e conquistas, os jovens do Movimento Político pela Unidade (MPPU) também se sentiram impelidos a entrar nessa discussão e pensarem juntos possíveis ações concretas que cada um pode tomar em seu próprio contexto. Com o objetivo de abraçar a “periferia existencial” representada pelo problema do racismo, cerca de 20 jovens de todo o Brasil se reuniram por videoconferência para discutir o tema. O encontro contou inicialmente com a apresentação de 3 painelistas (Nassor, Luiza e Felipe), jovens que atuam na causa antirracista e que procuram também contribuir com um novo olhar fundamentado na fraternidade. 

Em seguida das apresentações, construindo um clima seguro e fraterno, todos os participantes puderam compartilhar suas experiências, aprofundar suas feridas sobre o tema e admitir suas inseguranças. Sobretudo, tinham a confiança de que, apesar das diferenças entre eles e das estruturas históricas tão opressivas que permeiam a sociedade e as relações, era possível construir já ali uma semente do mundo unido. Esse artigo surgiu no contexto dessa conversa, como uma ação concreta de maior envolvimento e divulgação da pauta antirracista. De modo geral, não é objetivo deste texto cessar o debate da luta antirracista, ou trazer respostas prontas, mas apresentar uma rica e importante discussão, reinserindo-a na agenda do debate social. Nesse sentido, a seguir, apresentamos um extrato do Painel realizado em junho deste ano com jovens do MPPU. Para cada uma das perguntas levantadas, trazemos um resumo das discussões desenvolvidas nesse momento, esperando que o diálogo não se encerre aqui, mas que se ramifique e se torne cada vez mais enriquecedor.

 

Gostaríamos de entender o que é Racismo Estrutural com mais clareza.

O Racismo estrutural é a compreensão de que o fenômeno do racismo não consiste apenas em atos isolados entre si de injúria racial, mas de uma formalização histórica, institucional, relacional e sistemática, que sobrepõe uma raça sobre as demais ao longo do tempo. A noção se popularizou no Brasil a partir da obra de Silvio Almeida, intitulada “Racismo Estrutural”, parte da coleção feminismos plurais, organizada por Djamila Ribeiro. Parte, entretanto, de uma discussão que não se inicia aqui, mas tem interlocutores internacionais que discutem as raízes históricas do racismo e suas manifestações sistêmicas na realidade social.

 

Sobre a identidade do povo brasileiro, como a formação do país influencia na “forma/características” que o racismo ganhou no Brasil? 

O racismo no Brasil caminha junto com a sua formação histórica. Se hoje ele é estrutural, é porque, quando as estruturas ideacionais e políticas da nação brasileira foram criadas, elas se deram sobre a identidade dos povos originários (indígenas) e dos povos trazidos a nosso território pelo tráfico escravocrata. A mentalidade colonial que fundamentou a história da nação brasileira criou uma hierarquização que colocava a branquitude do europeu no topo, e as demais etnias à margem, como mão-de-obra, muitas vezes desumanizada.

O racismo se manifesta desde as primeiras tentativas de se organizar o que entendemos por “História Oficial” do país, com ajuda do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Desde o início, foi difundida a noção da articulação harmônica entre os três estratos étnicos formadores da identidade brasileira, principalmente com base em obras como “Casa Grande e Senzala” de Gylberto Freyre. Esse conceito harmônico, porém foi posteriormente criticado como falso e encobridor de uma realidade que ainda é bastante desigual, sendo denominado “mito da democracia racial”, por autores como Florestan Fernandes.

 

O que os painelistas pensam sobre a naturalização da violência policial?

A naturalização da violência policial é uma manifestação prática das diversas dimensões do racismo. Inicialmente, muitos setores da sociedade incorporam um discurso no qual a violência é enxergada como solução para as desigualdades e para a segurança pública. A situação fica ainda mais grave quando adicionamos a essa realidade um filtro racial, ou seja, quando nos damos conta de que quanto mais retinto o tom de pele do alvo policial, mais provável seja de que ele sofra racismo em sua realidade. Quando o perfil do jovem negro periférico é criminalizado, mesmo sem que cometa qualquer crime, temos a naturalização da violência, que se manifesta, por exemplo, quando a sociedade em geral se choca apenas quando pessoas com traços mais identificados com a branquitude ocupam os noticiários associados à violência. Isso faz com que muitas vezes algumas populações sejam injustamente vitimadas pelas mãos de um estado que as deveria defender.

 

Falar sobre o racismo, nos dias de hoje ainda é um tabu?

Discutir o racismo ainda é tabu. No Brasil, 87% das pessoas reconhecem que há racismo no país, mas apenas 4% se confessam racista, ou seja, o racismo acaba sempre por ser uma responsabilidade alheia. O constrangimento surge diante de assumir pequenas práticas racistas, que não as “clássicas” injúrias explicitamente ofensivas, mas também por práticas instituídas pelo chamado “racismo recreativo”, que passa não só pelas representações midiáticas que tornam a negritude caricaturas, mas também pela naturalização de “brincadeiras” ofensivas para com a realidade negra e sua identidade.

 

Porque o Brasil nega o Racismo?

Isso ocorre em parte porque ele é estrutural. Ou seja, assumir o racismo é assumir que o sucesso de todo o empreendimento nacional foi alcançado falhando com suas bases. Por isso, assumir a realidade do racismo, tanto nas estruturas quanto nas ações individuais, é imenso desafio. Vivemos diante de uma população que pode até admitir que exista racismo, mas que dificilmente assume o racismo nas próprias ações. Existe a naturalização das opressões de natureza racial, onde desigualdades e omissões do Estado são atribuídas a uma suposta incapacidade de quem sofre, não de quem protagoniza ou se omite no momento de garantir afirmativamente os direitos.

 

A questão racial ainda é tabu nas escolas, que se mantém silenciosa quando o assunto é discriminação. A diversidade étnica é desconsiderada, mesmo que tenha muitos alunos de diferentes origens em uma escola. Enquanto isso, as crianças perdem a oportunidade de formar valores essenciais para uma convivência harmônica em sociedade e ser um construtor de paz. Estudar a trajetória histórica do negro, sendo essa uma grande identidade do nosso país, e o seu valor na sociedade, ajudaria a diminuir o racismo em nossa sociedade?

As instituições de ensino tem um papel muito importante na perpetuação do racismo como o entendemos nos dias de hoje, seja reproduzindo representações equivocadas e distorcidas do papel exercido pela população negra e indígena em nossa história, seja negligenciando sua presença. As narrativas muitas vezes valorizam um ideário eurocêntrico que acaba por negar a violência do racismo. Quando se nega o racismo nas bases, se passa a naturalizar o racismo observado no dia a dia, o que é um problema mais difícil ainda de se resolver.

 

A luta antirracista, nas últimas semanas, vem  ganhando um importante papel na história. Porém também estão acontecendo casos de violência dentro das manifestações. Vemos sobretudo a utilização de imagens violentas, que podem reforçar ao leitor e ao consumidor de notícias uma perceção negativa sobre a luta antirracista. Até onde as manifestações estão realmente ajudando a resolver um problema, já que algumas vezes não se pergunta ou fala sobre as razões profundas do fenômeno? 

Existe uma problemática diante das representações midiáticas das manifestações, pois ao invés de se reconhecer em primeiro lugar a violência policial, dá uma ênfase exacerbada à suposta violência dos manifestantes. Essa representação muda a narrativa, deslegitimando as pautas e reivindicações das manifestaçõe e criminalizando a luta, muitas vezes por causa de episódios isolados. Certamente a violência nunca se justifica, mas casos pontuais de violência nas manifestações não se comparam à violência sistemática que a população negra sofre em seu cotidiano e sobretudo não invalidam a luta estrutural que o movimento tem pela frente. 

 

Por onde podemos começar para mudarmos essa realidade?

Podemos refletir melhor sobre as possibilidades de responder ao racismo se o encararmos pelo que ele vem sendo, se não adiarmos ainda mais um debate urgente como ele se apresenta a nós. Devemos entender, aprofundar e propor alternativas políticas, como discutir políticas afirmativas, promover a conscientização sobre o tema e lutar pela garantias de direitos básicos previstos na constituição porém negados na realidade prática.

 

Como uma pessoa branca pode apoiar o movimento sem roubar o protagonismo dos negros? 

Esta é uma questão importantíssima. O papel das pessoas brancas é importante, pois o racismo em sua concepção não foi criado pelos próprios povos oprimidos, então se torna impossível rompê-lo sem a colaboração de toda sociedade. É muito importante que as pessoas brancas reflitam sobre a noção de “branquitude”, que pensem sobre seus privilégios, que se manifestem diante de experiências de racismo e que rompam o silêncio diante das injustiças que percebem, sobretudo nos espaços que as pessoas negras não ocupam.

 

Qual o papel da fraternidade nessa luta? 

A fraternidade, ou a edificação de vínculos fraternos, vem diretamente de encontro à reivindicação de que “Vidas Negras Importam”, que é um clamor inicial por reconhecimento da dignidade humana. Com a construção de vínculos fraternos, temos mais segurança para desmistificar a existência do racismo, encarando de frente as nossas próprias falhas, acolhendo as dores uns dos outros e construindo concretamente um mundo que sonhamos juntos. Enxergar todas as raças como irmãs e partes concretas de uma realidade mais igualitária é importantíssimo para que o racismo seja combatido. Mas, como Martin Luther King Jr dizia: antes “que as pessoas não sejam julgadas pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter” é preciso compreender porque elas estão sendo julgadas, de modo que possamos lutar contra isso e estabelecer garantias políticas.

 

Como os brancos podem agir fraternalmente em relação ao Movimento negro? 

Primeiramente ouvindo e não silenciando suas vozes. Os brancos podem acolher as críticas do movimento negro, respeitar seu protagonismo, refletir sobre suas próprias práticas, buscar o conhecimento, dialogar sobre as pautas levantadas pelo movimento e sobretudo construir relacionamentos entre todos, que sustentem o aprofundamento dessa questão.

 

Como a fraternidade e a construção do diálogo podem ajudar a transformar uma estrutura racista? O quanto o povo negro, que sofre cotidianamente as dores da segregação, consegue ainda agir de forma fraterna, dialogar e respeitar?

Vivemos diante do grande desafio de romper com o ressentimento diante da dívida histórica da sociedade brasileira e sua noção de democracia para com os setores da sociedade oprimidos pelo racismo. Para tal, a construção do diálogo responsável se coloca como elemento essencial, se apresentando como uma saída viável para uma nova forma de organização social, pautada pela solidariedade, justiça social e afetividade.

 

Qual poderia ser o diferencial do MPPU em relação ao Movimento Negro?

O Movimento Político Pela Unidade, tem por desafio e oportunidade a possibilidade concreta de construir o diálogo fraterno. Por meio dele, pode-se construir desde já novas realidades, tendo por prerrogativa pensar a política sob uma nova mentalidade, inclusiva e aberta. Podemos abraçar a causa da justiça racial e nos colocar lado a lado da luta organizada, reconhecendo o papel da militância negra. Nesse sentido, o MPPU pode ser um interlocutor ou um espaço de debate, fazendo a ponte entre pessoas e grupos que se empenham na construção da justiça social.

 

Como pôde ser visto, ao mesmo tempo em que a reestruturação institucional precisa ser mudada com urgência, a mudança contextual exige uma caminhada longa, que nunca deve ser esgotada, já que o debate continua sempre aberto como fonte de enriquecimento.

Enquanto a sociedade tem o desafio de enfrentar o “inimigo” interior, que vem sendo imposto pela história de nosso país, pelas mídias e por interesses políticos e particular, devemos nos lembrar que o outro não é meu inimigo, mas é diferente e igual a mim mesmo.  

Como sociedade civil e sendo assim chamados à vocação política, mesmo que indiretamente, precisamos estar abertos ao diálogo fraterno, para a construção de uma nova consciência que nos leve à verdade ampla e inclusiva, e não a uma ética inversa. 

A formação por meio do diálogo aberto promovido por comunidades, como o que foi realizado pelos jovens do MPPU, nos levará à educação civil e nos permitirá a troca de conhecimento recíproco. Esse exercício nos permite “calçar o sapato do outro” como diria o Papa Francisco, nos auxiliando a deixar para trás o homem velho e nos tornar homens novos, com maior consciência de si e maior cuidado com o outro, porque vidas negras importam. 

 

Por: Ana Paula Baptistão; Elaine Oliveira; Felipe Lima, Juliana Cesar, Nassor Oliveira.


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